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20 de set de 2015

O Diário de Mr. Darcy (Amanda Grange)

Antes de você ler esta resenha, eu já aviso:

Cuidado! Esta resenha contém um Darcy. Se você é fraca do coração e passa mal ao ler sobre caras maravilhosos, tome seu remedinho e depois volte pra cá. 
Desde que a BBC lançou, em 1995, a famosa cena do Mr. Darcy de camisa branca molhada, o mundo passou a ver Pride and Prejudice pelos olhos dele. Apesar de o cara aparecer, de certa forma, pouco no livro, ele tem se tornado a razão mais significativa de muita gente amar a história acima de tudo. Inclusive, essa semana assisti uma apresentação de Mestrado que focava exatamente nisso: em como nós estamos criando um Darcy cheio de qualidades, que simplesmente não existe no romance de Jane Austen publicado em 1813, (ela, provavelmente, iria rir da nossa cara ao idealizarmos tanto um personagem). Mas, invenção ou não, é inegável que Darcy alimenta um fascínio em nossas mentes românticas que adoram um herói que se redime de seus preconceitos ao se apaixonar pela heroína. Tanto é que releituras de Orgulho e Preconceito pipocam a toda hora (principalmente depois de 95) nas livrarias.

E nessa onda de, "nós amamos Darcy", surgiu O Diário de Mr. Darcy (Mr. Darcy's Diary), da Amanda Granger, publicado aqui no Brasil pela maravilhosa Perdrazul Editora, livro este, que busca nos trazer a versão dele de como as coisas aconteceram lá em Netherfield. O livro nos conta a história de Darcy através de seu diário, desde  o momento em que inicia sua rivalidade com Wickman, passando por seu primeiro encontro com Elizabeth e indo até o felizes para sempre, que Amanda tomou a liberdade (oba!) de estender um pouquinho. 

sei que sou lindo e sei que você me quer
Não preciso dizer que, como fã inveterada do personagem, eu devorei esse livro em horas. Primeiro porque Amanda é talentosa demais e sua escrita é fluída e adorável de se ler e depois, porque ela conseguiu, como poucos, interpretar Darcy e entender (ou inventar de forma surpreendente), suas nuances para transportar para o papel. Ele não ficou exagerado nem caricato, muito pelo contrário, durante boa parte do livro, Darcy é carregado de preconceito, superioridade e ar esnobe, extremamente característicos de seu personagem. 
"Eu não fiz nada para tornar a noite mais agradável. Por sorte, não precisei me misturar com as pessoas locais; apesar de estarmos em pequeno grupo." (sobre o baile de Meryton)
"Ela mal tem um traço bom em seu rosto. (...) Ela é pouco notável em todos os sentidos." (sobre Elizabeth) 
Mas, como bem sabemos, a partir do momento em que Darcy e Elizabeth começam a se envolver em diálogos afiados, ele se sente cada vez mais intrigado por ela e aos poucos, sua opinião sobre a moça muda. Não a opinião sobre sua condição e sua família, pois ele ainda a considera inferior em relação a condição social e caracteriza sua família como extremamente vulgar. Mas, cresce nele uma atração por suas opiniões, seu temperamento e seus olhos (sim, ele se apaixona pelos olhos dela *suspiros*).
"Ela me encanta. Mas, ainda assim, seria desatino me ver apaixonado por ela. Pretendo me casar com um tipo muito diferente de mulher, alguém cuja fortuna e linhagem combinem com as minhas condições. Não darei mais atenção a Elizabeth."

o que que tá aconte se no
O livro recria todas as cenas que envolvem Darcy no livro original e ainda nos dá uma percepção interna de sua amizade com Bingley e Caroline, além de desenvolver também, aos olhos do leitor, seu relacionamento com a irmã, Georgiana. Fascinante também é a versão de Darcy do pedido de casamento que faz a Elizabeth, pois ali percebemos o tamanho de seus preconceitos e sua arrogância perante a condição social dela. Apesar de amá-la, ele não se despiu de seus julgamentos e, sem perceber, machuca profundamente Elizabeth. Ele age como se estivesse fazendo um grande favor ao pedir ela em casamento e fica IN-DIG-NA-DO quando ela o recusa, (é aquele momento em que você quer entrar no livro e bater  a cabeça dele contra uma parede, sério). 
"Seria esse o fim de todo o meu esforço? Ser rejeitado? E de tal maneira! Eu?! Um Darcy! Receber uma resposta como se eu fosse um caça-dotes ou um pretendente indesejado."
Adorável. SQN.
basicamente
Apesar da grosseria, nós sabemos que passado este momento mais vergonhoso de toda a história dos pedidos de casamento, desde o início da humanidade, Darcy e Elizabeth vão se entender mais adiante. E em O Diário de Mr. Darcy ainda temos uma vislumbre de como ele teria lidado com a situação da Lydia, que no livro original fica obscura, sendo mencionada apenas em carta e que é a redenção do herói e prova de seu amor por Elizabeth. 

tô bem pouco feliz, vocês podem ver
Eu concordo com a ideia de que reinventamos Darcy nos últimos anos e que se Jane Austen visse o que fizemos com seu personagem, ela provavelmente nos puxaria a orelha pois, seus livros vão muito além do romance que almeja um casamento, e sua heroínas não podem ser diminuídas a ponto de serem apenas garotas tolas buscando um "felizes para sempre". No entanto, é inegável que os pontos escuros e escondidos de Darcy dão asas a nossa imaginação e é impossível não tentarmos preencher as lacunas que Jane deixou. Mas essa é, para mim, a  delicia da ficção: a possibilidade de reinventar e de criar novas possibilidades. 

Então, meu veredicto sobre O Diário de Mr. Darcy é: leiam, leiam, leiam. Ele  fará com que vocês se apaixonem ainda mais por Darcy e Elizabeth, o que eu acredito ser mais um tributo à criação de Jane Austen.