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14 de nov de 2014

Mansfield Park e o grito de Jane Austen

Mansfield Park (Companhia das Letras, 608 páginas) foi originalmente publicado em 1814 e é, como os outros livros de Jane Austen, um retrato muito fiel da sociedade da época, que se construía sobre a imagem e as expectativas sociais. Mas, ao contrário da maioria das obras de Jane, Mansfield Park  não possui o humor corriqueiro das outras histórias da autora. Ele é mais ácido, mais duro, e eu tive a impressão de que, neste livro, Jane Austen quis nos mostrar o quão injusta a sociedade do seu tempo poderia ser com as mulheres que, infelizmente, estavam presas a estereótipos e eram julgadas por seus sorrisos, palavras e atitudes.
A história se passa no interior da Inglaterra e tem como protagonista Fanny Prince, que aos 12 anos vai viver com a família rica dos tios, em Mansfield Park. Vinda de uma realidade humilde, irmã de outras nove crianças, a jovem se vê diante do luxo e de maneiras que desconhece. Criada a partir de então para “ser grata por tudo que lhe estava sendo dado”, Fanny foi crescendo com a síndrome do Patinho Feio, sempre se inferiorizando e achando que era um estorvo
Mas não pensem que Jane Austen criou a partir daí uma heroína estóica, cheia de sofrimentos, que vai lutar bravamente por si mesma e por amor. Na verdade, Fanny Price entra muda e sai quase calada da história (mas de ouvidos bem abertos o tempo todo). Até a metade do livro ela é simplesmente um papel de parede que aparece de vez em quando, sem emitir nenhuma opinião, mas pronta para julgar todos ao seu redor e endeusar o primo Edmund. Se é chamada, treme, sua, enrubesce, balbucia. Se é instigada a emitir uma opinião, fica assustada como um ratinho. É mulher modelo da época: submissa, ingênua, quase patética. Na segunda parte do livro, quando as primas saem de sua vida, Fanny de repente ‘nasce’ aos olhos de muitos que passam a enxergar sua beleza, seu comportamento exemplar e sua humildade. Mas, apesar da docilidade e submissão, Fanny é humana e Jane nos mostra isso através dos pensamentos dela, que emanam ciúme, por vezes inveja e vários julgamentos.
Eu não me senti feliz ao ler Mansfield Park. Ele não me trouxe aquelas sensações boas que Orgulho e Preconceito me trouxeram, ou o divertimento de Emma. Eu me senti triste pelas mulheres que Jane descreveu. Me senti triste pela submissão de Fanny, e triste por Mary Crawford, que era a única a demonstrar uma liberdade de pensamento e foi duramente julgada por isso. Me senti mal por Maria, que foi sentenciada a exclusão depois de fugir com o homem que julgava amar. A sociedade descrita por Jane, nesse que é seu romance mais maduro, é cruel e impiedosa com toda mulher que desafia a regra.
No fim das contas, o livro me fez refletir sobre aquela época e me tornou mais consciente da luta pela liberdade feminina que é tão recente e tão importante. Às vezes, me pego dizendo que amaria viver no mundo da Jane, mas quando paro pra refletir, vejo que não, na verdade eu não gostaria. Hoje em dia nós mulheres ainda sofremos muitas privações e somos inferiorizadas o tempo todo, então imaginem o que era viver na sociedade engessada de Mansfield Park!!! Eu senti, ao longo do livro, uma certa melancolia e por vezes até certo rancor em algumas frases e falas e fiquei me questionando se elas eram dos personagens, ou da própria Jane gritando lá do século XIX: HEY, OLHEM PARA NÓS, OLHEM PARA O QUE NOS FAZIAM PASSAR! 

Será que ela foi feliz? Será que viver daquela forma, esperando por um marido com uma boa fortuna, sendo controlada pelas palavras e ações e julgada por cada opinião oferecia a chance de uma mulher ser realmente feliz? Não sei. Talvez a gente nunca saiba. Mas o simples fato de Jane ter escrito Mansfield, manifesta a força da voz feminina que podia não ser ouvida nos salões, mas era derramada  e alagava o papel. 
Onde quer que você esteja Jane, nós te ouvimos. 

*escrevi essa resenha primeiramente para o site Foforks. Vocês podem conferi-la lá também ;) *