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27 de jun de 2009

Pro dia ficar melhor...

Hoje passo o dia todo envolvida com o São Leo em Dança. Então, deixo pra vocês um videozinho pra curtir no domingo =D

Música deliciosa, clipe delicioso. Cantor... hum uau uau uau!

video

*mejoganaparedemechamadeodaliscageeeeez*

23 de jun de 2009

A arte de ser um segredo


'Lembre-se Chiyo, gueixas não são cortesãs. E não somos esposas. Vendemos nossas habilidades, não nossos corpos. Criamos um mundo secreto. Um mundo somente de beleza. A palavra gueixa significa artista. E ser uma gueixa é ser considerada como um mundo de arte em transformação.' [Mameha]


Quando eu li Memórias de uma Gueixa há mais ou menos um mês, fiquei profundamente tocada pela história destas mulheres. O livro me fez chorar. O que para mim, significa que ele foi muito além de mero entretenimento.
O obra de Arthur Golden publicada em 1997, conta a história fictícia de Nitta Sayuri, uma mulher idosa que, quando jovem, seguiu uma das tradições mais antigas da cultura de seu povo: se tornou uma gueixa. Ditando suas memórias como se fossem verídicas, Sayuri recorda sua vida desde o momento em que foi tirada de um vilarejo pobre de pescadores e vendida a uma casa de gueixas de Kyoto. Chiyo, seu nome verdadeiro, é levada a um mundo desconhecido, de artes milenares e segredos preciosos, onde um olhar pode dizer mais do que qualquer palavra.
Dotada de uma beleza única, com seus olhos azuis plácidos, assim que chega a seu destino a pequena Chiyo é alvo de calúnias e maldades de Hatsumomo, uma das mais lindas gueixas de Kyoto, e também a pessoa que mantém, com seu trabalho, o okya (casa de gueixas) em que Chiyo vive. Amaldiçoada com a inveja de Hatsumomo e aos poucos desgarrada dos sonhos de ter uma vida feliz por uma série de infortúnios, o destino da menina só muda quando seu caminho cruza com o da lendária Mameha, uma gueixa respeitada e mais famosa que Hatsumomo. A partir desse encontro, Chiyo se transforma em Sayuri, e devido às habilidades de sua preceptora, aos poucos vai se tornando uma gueixa disputada pelas casas de chá e aclamada por sua delicadesa, inteligência e claro, por seus misteriosos olhos cheios de água.
Mas não só de dança, chá e quimonos é feita a vida destas mulheres. E é aqui que reside talvez o maior trunfo da obra de Golden. Em nossa visão ocidental minimista e preconceituosa, pensamos que gueixas são meras prostitutas. Que seus treinamentos as tornam mulheres de prazeres secretos e habilidades em sedução. Não poderíamos estar mais equivocados, como sempre. Confundimos a vida das mulheres treinadas para entreter, com a vida das mulheres sem futuro que sobreviram à Segunda Guerra e foram obrigadas a usar a tradição como figuração para se manterem vivas entre soldados americanos e uma Kyoto destruída.
A tradição diz que uma gueixa é uma artista. Deve usar sua beleza, sua feminilidade, seus dons, sua fala e gestos para entreter as pessoas e fazerem-nas esquecer do mundo por instantes. A partir da narração da vida de Sayuri, somos apresentados às verdades que o Ocidente desconhece, e o Oriente trata como segredo. Gueixas não são cortesãs. São treinadas desde pequenas para a dança, a música, a poesia como numa escola de teatro. Iniciadas em segredos de sedução, eles não devem ser usados para o sexo. Uma gueixa que deseja ser respeitada, não dorme com os homens que entrete. Tem no entanto, se for afortunada, um 'danna'. Um homem, a quem será ligada por uma pequena cerimônia, tornando-se seu protetor e mantendo-na da melhor forma possível. Sim, de forma quase triste, elas não são donas de sua própria felicidade se esta felicidade não condizer com a vida de uma gueixa.
Este é um dos dilemas da jovem Sayuri. Amar um homem que nunca poderá ter, e viver dentro de um mundo em que é a peça principal, a boneca perfeita, mas que não conforta seu coração ferido. Seus olhos são límpidos, seu sorriso é encantador, seus gestos são perfeitos. Mas seu coração vive nas sombras. E a beleza e agonia deste fato, toma o leitor de tal forma, que desejamos a cada página que um dia ela encontre o que procura. Porque se não achar, é como se nós mesmos, como espectadores, perdêssemos algo.
O filme, baseado na obra estreou em 2005 com direção de Rob Marshall e foi tão aclamado que acabou levando trêssOscars: melhor figurino, arte e fotografia, além de um Globo de Ouro pela trilha sonora. E posso dizer que ele faz jus a todos os prêmios. De uma beleza aterradora, conseguiu uma proeza que eu vejo muito pouco no cinema: reproduziu fielmente o livro. Personagens, cenas, trama. Pontos adicionais por ter a fabulosa Michelle Yeoh interpretando Mameha.
Eu me apaixonei pelo livro e pela película e os recomendo tanto para quem vive no mundo da arte e está em contato com muito dos dilemas vividos por Sayuri ao longo da vida de artista, quanto para quem quer apenas saber mais sobre a vida desta mulheres. Não entro no ponto se ele é um retrato fiel da cultura japonesa. Quando publicado, foi recebido de forma antagônica pelo Japão, enquanto flutuava pela crítica literária favorável no resto do mundo. Acredito que, fidelíssimo ou não, o livro é uma porta convidativa para um mundo desconhecido e mal interpretado.
Devo dizer também, que meu amor por Memórias de uma gueixa não se prende apenas ao descobrir uma coisa nova. Fiquei fascinada pela pureza da obra. Pelo sentimento delicado que transborda a cada página e se derrama em frente a nossos olhos como o chá sendo servido em uma peça delicada de porcelana.
Não somos gueixas. Não somos obrigadas a aprender o que não queremos, nem somos proibidas a amar pelas regras silenciosas do parâmetro social. Vivemos como queremos.
Mas ainda somos mulheres. Ainda sentimos. Ainda choramos. Ainda sofremos. Quando nos maquiamos e entramos no palco, somos outra. Nossos desejos camuflados e sonhos ficam para trás, enquanto nossa outra face resplandece. E talvez por isto, todas nós tenhamos um pouco de Sayuri dentro de nós. Um pedaço da pequena Chiyo.
Um resquício de gueixas.

'Ela pinta o rosto para escondê-lo. Seus olhos de águas profundas. As gueixas não podem querer. Não podem sentir. Gueixas são artistas do mundo flutuante. Elas dançam, elas cantam, elas te entretêm. O que você quiser. O resto é sombra, o resto é segredo. [ Sayuri]

Momento

'- Tu vai ser uma grande professora de História...'

Ouvi isso ontem, de um dos maiores estudiosos de arqueologia da terra brazilis. Ele veio até mim e disse de forma simples, com um sorriso, diretamente.
Acho que poucas coisas na vida são tão marcantes, quanto você ter seu esforço reconhecido pelos professores que admira.
Nos faz querer ir além. Sempre além.