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23 de jun de 2009

A arte de ser um segredo


'Lembre-se Chiyo, gueixas não são cortesãs. E não somos esposas. Vendemos nossas habilidades, não nossos corpos. Criamos um mundo secreto. Um mundo somente de beleza. A palavra gueixa significa artista. E ser uma gueixa é ser considerada como um mundo de arte em transformação.' [Mameha]


Quando eu li Memórias de uma Gueixa há mais ou menos um mês, fiquei profundamente tocada pela história destas mulheres. O livro me fez chorar. O que para mim, significa que ele foi muito além de mero entretenimento.
O obra de Arthur Golden publicada em 1997, conta a história fictícia de Nitta Sayuri, uma mulher idosa que, quando jovem, seguiu uma das tradições mais antigas da cultura de seu povo: se tornou uma gueixa. Ditando suas memórias como se fossem verídicas, Sayuri recorda sua vida desde o momento em que foi tirada de um vilarejo pobre de pescadores e vendida a uma casa de gueixas de Kyoto. Chiyo, seu nome verdadeiro, é levada a um mundo desconhecido, de artes milenares e segredos preciosos, onde um olhar pode dizer mais do que qualquer palavra.
Dotada de uma beleza única, com seus olhos azuis plácidos, assim que chega a seu destino a pequena Chiyo é alvo de calúnias e maldades de Hatsumomo, uma das mais lindas gueixas de Kyoto, e também a pessoa que mantém, com seu trabalho, o okya (casa de gueixas) em que Chiyo vive. Amaldiçoada com a inveja de Hatsumomo e aos poucos desgarrada dos sonhos de ter uma vida feliz por uma série de infortúnios, o destino da menina só muda quando seu caminho cruza com o da lendária Mameha, uma gueixa respeitada e mais famosa que Hatsumomo. A partir desse encontro, Chiyo se transforma em Sayuri, e devido às habilidades de sua preceptora, aos poucos vai se tornando uma gueixa disputada pelas casas de chá e aclamada por sua delicadesa, inteligência e claro, por seus misteriosos olhos cheios de água.
Mas não só de dança, chá e quimonos é feita a vida destas mulheres. E é aqui que reside talvez o maior trunfo da obra de Golden. Em nossa visão ocidental minimista e preconceituosa, pensamos que gueixas são meras prostitutas. Que seus treinamentos as tornam mulheres de prazeres secretos e habilidades em sedução. Não poderíamos estar mais equivocados, como sempre. Confundimos a vida das mulheres treinadas para entreter, com a vida das mulheres sem futuro que sobreviram à Segunda Guerra e foram obrigadas a usar a tradição como figuração para se manterem vivas entre soldados americanos e uma Kyoto destruída.
A tradição diz que uma gueixa é uma artista. Deve usar sua beleza, sua feminilidade, seus dons, sua fala e gestos para entreter as pessoas e fazerem-nas esquecer do mundo por instantes. A partir da narração da vida de Sayuri, somos apresentados às verdades que o Ocidente desconhece, e o Oriente trata como segredo. Gueixas não são cortesãs. São treinadas desde pequenas para a dança, a música, a poesia como numa escola de teatro. Iniciadas em segredos de sedução, eles não devem ser usados para o sexo. Uma gueixa que deseja ser respeitada, não dorme com os homens que entrete. Tem no entanto, se for afortunada, um 'danna'. Um homem, a quem será ligada por uma pequena cerimônia, tornando-se seu protetor e mantendo-na da melhor forma possível. Sim, de forma quase triste, elas não são donas de sua própria felicidade se esta felicidade não condizer com a vida de uma gueixa.
Este é um dos dilemas da jovem Sayuri. Amar um homem que nunca poderá ter, e viver dentro de um mundo em que é a peça principal, a boneca perfeita, mas que não conforta seu coração ferido. Seus olhos são límpidos, seu sorriso é encantador, seus gestos são perfeitos. Mas seu coração vive nas sombras. E a beleza e agonia deste fato, toma o leitor de tal forma, que desejamos a cada página que um dia ela encontre o que procura. Porque se não achar, é como se nós mesmos, como espectadores, perdêssemos algo.
O filme, baseado na obra estreou em 2005 com direção de Rob Marshall e foi tão aclamado que acabou levando trêssOscars: melhor figurino, arte e fotografia, além de um Globo de Ouro pela trilha sonora. E posso dizer que ele faz jus a todos os prêmios. De uma beleza aterradora, conseguiu uma proeza que eu vejo muito pouco no cinema: reproduziu fielmente o livro. Personagens, cenas, trama. Pontos adicionais por ter a fabulosa Michelle Yeoh interpretando Mameha.
Eu me apaixonei pelo livro e pela película e os recomendo tanto para quem vive no mundo da arte e está em contato com muito dos dilemas vividos por Sayuri ao longo da vida de artista, quanto para quem quer apenas saber mais sobre a vida desta mulheres. Não entro no ponto se ele é um retrato fiel da cultura japonesa. Quando publicado, foi recebido de forma antagônica pelo Japão, enquanto flutuava pela crítica literária favorável no resto do mundo. Acredito que, fidelíssimo ou não, o livro é uma porta convidativa para um mundo desconhecido e mal interpretado.
Devo dizer também, que meu amor por Memórias de uma gueixa não se prende apenas ao descobrir uma coisa nova. Fiquei fascinada pela pureza da obra. Pelo sentimento delicado que transborda a cada página e se derrama em frente a nossos olhos como o chá sendo servido em uma peça delicada de porcelana.
Não somos gueixas. Não somos obrigadas a aprender o que não queremos, nem somos proibidas a amar pelas regras silenciosas do parâmetro social. Vivemos como queremos.
Mas ainda somos mulheres. Ainda sentimos. Ainda choramos. Ainda sofremos. Quando nos maquiamos e entramos no palco, somos outra. Nossos desejos camuflados e sonhos ficam para trás, enquanto nossa outra face resplandece. E talvez por isto, todas nós tenhamos um pouco de Sayuri dentro de nós. Um pedaço da pequena Chiyo.
Um resquício de gueixas.

'Ela pinta o rosto para escondê-lo. Seus olhos de águas profundas. As gueixas não podem querer. Não podem sentir. Gueixas são artistas do mundo flutuante. Elas dançam, elas cantam, elas te entretêm. O que você quiser. O resto é sombra, o resto é segredo. [ Sayuri]

11 comentários:

  1. Quanto tempo sem vir aqui! o.O

    Menina, eu tenho que ler e ver Memórias de uma Gueixa. Uma vez comecei a ver (acho que passou na TV), mas tinha tanta gente aqui que era impossível se concentrar. Você me deixou com mais vontade de ver. Pensando bem, 'Memórias...' é realmente sua cara!

    um beijo, nega.

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  2. "Este é um dos dilemas da jovem Sayuri..."

    Juro que quase fui a lágrimas quando li este parágrafo. A história, a cultura japonesa me atrai profundamente. Uma história de muitas glórias e, ao mesmo tempo, horror e grande sofrimento.

    As histórias japonesas sempre nos mostram que sempre existem dois caminhos: o do bem e o do mal, ainda que ambos se encontrem inúmeras vezes acabam por fundirem-se em um só. Difícil qual escolher.

    Vou procurar por este livro.

    Beijinhos!

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  3. Esse livro é maravilhoso, e o filme idem... Uma lição de vida de mulheres fortes e dedicadas a arte... E fica um dica: quem gostou do livro ou do filme, tambem vai gostar do livro "Minha vida como Gueixa", de Mineko Iwasaki e Rande Brown. Mineko Iwasaki foi a gueixa entrevista por Arthur Golden, e suas historias foram a base para o livro Memórias de uma Gueixa. Conhecer a verdadeira historia dela não diminui a obra de ficção de Arthur, mas a complementa de uma forma maravilhosa! E pra quem gosta MESMO de gueixas como eu, tem um livro chamado "Gueixa" de Liza Dalby, a unica gueixa estrangeira da historia... muito interessante!!

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  4. Obrigada pela visita, Ket!

    Gostou do coment? Que bom!! :-)

    Beijinhos!

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  5. Oiiee! Sim, eu voltei! =]]

    Cara, não li o livro, mass vi o filme e me apaixonei! chorei horrores!! Posso assistir 10 vezes e a cada vez q assisto sempre parece que é a primeira vez! Concordo com tudo que vc falou!

    Beeijoss!!
    ;**

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  6. Sempre gostei de tribal, apesar de não saber quase nada sobre... assim como DV no geral :P

    beijocas

    rayzel

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  7. Ai, sempre quiz ler esse livro. Agora, entao!!!

    Obrigada pela visita!!!

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  8. nó, eu chorei milhers com o filme! quero o livroooo! sabe o que me marcou, tbm? a inveja e a competição entre elas...é uma lição...
    um beijo enorme pra ti!
    (to sarando,já, iupii)

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  9. Não li o livro. So vi o filme, que não é lá grandes coisas, né? Mas um filme nunca consegue chegar perto da emoção que um livro passa!

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  10. Oi, Ket!

    Não sei será possível fazer videozinho, mas as fotos creio que vão sair, sim! Só espero que sejam boas, rsrs

    Bjokas! Boa sorte por aí :-)

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  11. Li o livro e AMEI! e acho que preciso relê-lo, com certeza agora o verei com outros olhos.. Valeu a dica!

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