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13 de nov de 2008

A Saga da Solista- Quando Você Pira Totalmente

Então, seguindo a viagem pelo solo, paramos no dia em que na piração total troquei o Baladi de Fairuz por Yasamina. Certo?
Errado.
Como? Assim... Lá estava eu empolgada com minha nova música. Era linda, era clássica, era emocionante. Subia e descia, me dava muitas possibilidades de passos, exploração de palco e me deixava feliz. Alegre mesmo. Então eu só precisava coreografá-la e pronto, um solo saindo quentinho do forno.
Sabe quando dizem que quando é fácil demais é porque tem algo de errado? Passei por isso.
Eu fui uma preguiçosa de marca maior... Tinha meses pela frente, muitos dias, horas vagas diversas pra coreografar...que tal deixar pra amanhã? Eu deixei. E deixei e deixei... Até que um belo domingo chega a chefa mor: '-Ket fica mais um pouco que quero ver teu solo.'
'Hã, solo? Que solo? Ai meu Deus eu não coreografei nada!!!! E o que fiz tá tenebroso.'
Muito bem feito pra mim, mas bem feito mesmo.
Então, mesmo tentando fugir [vesti a roupa, peguei a bolsa e sai de fininho do vestiário, mas ela me pegou bem na saída] não deu. Encarei mostrar pra ela o que tinha feito- ou melhor, não tinha feito. Na boa? Foram cinco minutos angustiantes. Quando acabei ela me olhou perplexa e soltou:
-Mas o que é que tu fez????
Juro que quis me esconder. Nem força pra juntar meu orgulho ferido tinha, porque o erro fora total meu. E ela continuou falando. Que eu estava meio pirada, que meu solo de antes estava perfeito, que minha leitura deste estava mil vezes inferior e que eu estava numa enrrascada. Literalmente.
E sabe, ela estava certa em tudo.
Então ela me me mostrou as possibilidades, explorações novas e me fez testá-las. [Nunca duvide da palavra de uma coreógrafa premiada. Ela sempre sabe do que está falando e você não vai querer duvidar.]
De repente senti uma saudade imensa do meu baladi, de suas marcações, de sua melodia e sua
leitura que conhecia de trás pra frente. Yasamina se tornou agoniante e eu corri pra casa ouvir a música antiga e ver se ainda havia tempo de salvar a situação [um mês para o espetáculo]. Uma corrida contra o tempo, era nisso que meu solo havia se transformado.
E sabe, quase tive de rir no fim das contas. Porque de repente fiz em duas semanas o que não havia feito desde o começo do ano. Ouvi, coreografei e terminei o solo.
Situação totalmente pirada.
Bom, agora faltando um pouco mais de uma semana é a expectativa que me consome. O frio e o medo da estreiar sozinha no palco... Estou muito acostumada com o grupo, dançar acompanhada é familiar e fácil. Agora, assumir a responsabilidade de uma música inteira sua, com todas as atenções voltadas para o seu trabalho é totalmente diferente.
O que eu sinto? Acho que em primeiro lugar medo. De errar, de não me expressar bem, de esquecer tudo, de travar. E depois orgulho. Orgulho do que fiz, da coreo que bolei sozinha, do meu esforço - mesmo que de última hora. E tudo se mescla e se transforma em emoção. Me emociona ter minha dancinha feita e prontinha pro palco. Ainda mais quando penso que meu caminho nem é tão grande e estou ainda engatinhando.

Ah eu tô... feliz com todo o espetáculo e esse meu novo passo.
E me faz bem compartilhar mais esse pedaço com vocês.